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Dieta cetogênica e Câncer

Existe um dogma em relação ao câncer que é bastante disseminado entre os pacientes e médicos: o de que é uma doença causada por mutações genéticas no DNA da célula, que se torna capaz de se dividir sem controle e, por isso, se transforma em um tumor maligno e invasor, o câncer.

No entanto, existe outra forma de explicar a doença, chamada de teoria metabólica do câncer. Segundo ela, alguns tumores malignos surgiriam após uma crise metabólica celular, principalmente na mitocôndria (sede da produção de energia da célula), a partir da qual os danos ao DNA surgiriam. Ou seja, alguns tipos de “mutações” (não todos os tipos, que fique claro) seriam uma consequência de outro problema e não necessariamente a causa. Essa teoria tem respaldo em estudos antigos que demonstraram que, ao se inserir o núcleo de uma célula saudável no citoplasma de uma célula retirada de um tumor maligno, esse núcleo sofre mutações típicas do câncer, e a célula começa a se dividir sem controle.

Além disso, existe o fato de que muitas células cancerosas não utilizam o oxigênio de maneira adequada para produzir energia (o que ocorre na mitocôndria, mas elas estão danificadas) e passam a depender muito de outro tipo de via, a chamada fermentação, que utiliza apenas a glicose como combustível.

É daí que surgiu a proposta de utilizar a dieta cetogênica para os pacientes com câncer. Como a dieta cetogênica praticamente elimina as fontes diretas de glicose da alimentação, as células de câncer sofreriam com a falta desse nutriente vital pra elas. Já as outras células saudáveis, que não possuem tantos problemas na mitocôndria, poderiam aprender a utilizar o combustível alternativo do corpo, os corpos cetônicos, já que eles são produzidos naturalmente na dieta cetogênica.

Não sou especialista em câncer, entendo mais de nutrição e de ciência. Dito isso, acredito que a teoria metabólica do câncer tem seu mérito, porém carece de estudos e de comprovação científica. O mesmo pode ser dito para o uso da dieta cetogênica em pacientes com a doença. É uma teoria interessante, que encontra respaldo no metabolismo das células tumorais, porém que foi muito pouco testada em estudos clínicos e na prática. O problema é que não acredito que esses estudos surgirão rapidamente e muito menos em grande número. Sempre que falamos em uma intervenção para qualquer doença que não envolve medicações, fica mais difícil os estudos saírem do papel.

A Dieta cetogênica, ao contrário do que muitos dizem, não é uma dieta impossível de ser feita, não causa danos irreversíveis, não causa cetoacidose. Ela é contraindicada em algumas situações específicas – e eu não recomendaria que fosse feita sem acompanhamento de um profissional habilitado. Ela pode ser usada, sim, como coadjuvante no tratamento de algumas doenças e pode trazer benefícios metabólicos em longo prazo. Mas, salvo exceções, não é uma dieta para ser feita por períodos muito longos.

Por isso, acredito que o uso da dieta cetogênica no câncer não é um absurdo, mas está muito longe de ser uma salvação ou cura para a doença. Precisamos, como sempre, olhar cada paciente individualmente, com suas particularidades, e decidir junto com ele qual tratamento é o mais adequado, se o convencional, o alternativo, ou uma combinação de todos. A fé, a meditação, as mudanças no estilo de vida são todos considerados coadjuvantes muito importantes na luta contra essa doença terrível. Toda ajuda deve ser bem-vinda. E todo dogma deve ser questionado.

Saiba mais sobre a Dra. Melissa Chaves

Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tornou-se especialista em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), em 2016.

A Dra. Melissa é pós-graduada, desde 2006, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, desde 2007.

A profissional traz no currículo, ainda, artigos e resumos publicados em periódicos e anais de congressos. As premiações obtidas ao longo dos anos representam uma retribuição ao empenho e à dedicação à profissão. Entre elas:

  • Women’s Dermatologic Society International Travel Grant, bolsa desta entidade com o objetivo de cobrir as despesas de viagem e permitir participação e apresentação de trabalho em forma de pôster no American Academy of Dermatology 65th meeting, Washington DC, 2007.